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segunda-feira, 7 de abril de 2008

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!...

Noite sempre plo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho - que amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
Plo menos era o sossego completo... História! Era a melhor das vidas...

Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza...

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. Co a breca! levem-me prá enfermaria -
Isto é: pra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital - higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo...

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou


Mário de Sá-Carneiro

sábado, 29 de março de 2008

Philéo


"E eu corro, claro que corro pelo cais da estação, com os olhos arregalados e um sorriso de felicidade desmedida. Nunca fui muito bom nos sorrisos de felicidade desmedida, mas a este pratiquei-o. Ostento-o sem interrupções enquanto corro pelo cais da estação, enquanto espreito pelos interstícios da multidão para ver antes de ser visto. Como se fizesse alguma diferença."

quinta-feira, 27 de março de 2008

Discrepância


"José Sócrates anunciou, a descida do IVA em 1%, fixando a taxa em 20%. É pouco. Há meia dúzia de anos este imposto era de 17%. A Espanha aplica a taxa de 16%. Apesar de pouco, é curioso anotar a oposição da oposição à anunciada descida do IVA. Uns dizem que esta descida só vai beneficiar as «empresas e não os cidadãos», de onde se deduz que a dita taxa não devia descer; outros dizem que devia «descer a taxa de IRC em vez do IVA», de onde se deduz que a referida taxa não devia descer; outros, ainda, dizem que se trata de «cosmética eleitoralista», de onde se deduz que a referida taxa não devia descer. E por aí fora. Fico com a ideia que, do ponto de vista dos efeitos mediáticos, é irrelevante se se trata de subir ou de descer um imposto. Se a economia não entrasse nesta conversa, o melhor seria estar quieto."


quinta-feira, 20 de março de 2008

Mãos frias

no seu melhor, há bondade na Humanidade.
alguma compreensão e, às vezes, actos de
coragem
mas vendo bem é uma amalgama, uma substância que não é
grande coisa.
é como um grande animal a dormir profundamente e
nada o consegue acordar.
quando activa é boa na brutalidade,
egoísmo, injustiça, assassínio.

o que podemos fazer, com esta Humanidade?

Causa e Efeito

os melhores morrem muitas vezes pela própria mão
só para fugir,
e aqueles que ficam para trás
nunca chegam realmente a perceber
a razão de alguém
querer
fugir
deles



estou longe de estar triste. palavra (sorriso)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Ouço motores na noite

"certas coisas que nós suportamos
não nos dizem respeito,
e nós lidamos com elas
devido ao tédio ou ao medo ou ao dinheiro
ou à pouca inteligência;
a nossa vontade e a nossa esperança
cada vez mais pequenas,
tão pequenas que nem as suportamos,
nós agarramo-nos ao Ideal
mas perdemos o Rumo:
muita parra e pouca uva,
e vemos nomes que antes significavam sabedoria,
como sinais em cidades fantasma,
onde só as campas são reais."


mérito reconhecido

quinta-feira, 6 de março de 2008

jogo do empurra

(especial ênfase para o título)


"na verdade uma das coisas mais
terríveis é
estar na cama
noite após noite
com uma mulher que já não
queres comer.

elas envelhecem, deixam de ser
bonitas – elas até começam
a ressonar, a perder
sentido de humor.

às vezes, na cama, viraste para um lado,
os teus pés tocam os dela –
meu Deus, que horror! –
e a noite lá fora
para lá das cortinas
selando-vos aos dois
no
túmulo.

e de manhã vão à
casa de banho, cruzam-se no corredor, falam,
dizem coisas sem importância; fritam-se ovos, arrancam
motores.

mas vendo bem as coisas
estão 2 estranhos
a enfardar torradas
a queimar a cabeça entorpecida e as tripas com
café.

vidas fora de prazo impelidas umas contra
as outras
e sem hipótese de
fuga.

tu entras no carro
e conduzes até ao trabalho
e lá há mais estranhos, a maioria deles
esposas e maridos de
alguém, e para além do sufoco do trabalho, eles
engatam e riem e apalpam, às vezes tentam
uma queca rápida algures –
não pode ser em casa –
e depois
conduzem de regresso a casa
e esperam pelo Natal ou pelo Dia do Trabalhador ou
pelo Domingo ou
por algo."